Manuel Brás

A década de 80 do século XX é indubitavelmente uma década terrível e de má memória para a esquerda. Uma década em que muitos povos, especialmente no leste europeu se libertaram das ditaduras, essas sim, a sério, pesadas, que os oprimiram desde o fim da II Guerra Mundial, incluindo a Rússia, desde 1917.

Muitos historiadores e estudiosos do século XX apontam como artífices (ou “influencers”, como agora se diz) dessas mudanças loucas em direcção à liberdade dos povos Ronald Reagan, o Papa João Paulo II e Margaret Thatcher, cada um ao seu estilo e dentro das suas diferentes competências.

O resultado óbvio foi que o leste europeu viu-se livre do comunismo, o tal socialismo científico, que ruiu sozinho, tendo o derrube do Muro de Berlim em 9 de Novembro de 1989 dado início a esse processo imparável que culminou na queda da União Soviética em 19 de Agosto de 1991, na própria libertação do povo russo e demais povos e países satélites da Rússia, a tristemente famigerada “cortina de ferro”. Datas que qualquer pessoa que preze a liberdade, sua e dos outros, não poderá jamais esquecer. Sorte a nossa, dos que vivemos estes anos.

Hoje, o leste europeu reencontrou-se nas suas identidades nacionais, independentemente de estarem ou não dentro da União Europeia, rejeitando o socialismo, mesmo na Rússia, mesmo tendo Vladimir Putin sido o chefe do KGB ainda no tempo da defunta URSS. Tudo indica que Vladimir Putin aprendeu alguma coisa com os erros do comunismo, ao ponto de o ter abandonado e rejeitado. Hoje, na Rússia, o PC é inimigo e opositor de Vladimir Putin e dos valores que ele representa, goste-se ou não.

No entanto, na Europa ocidental parece não se ter aprendido nada com os erros do comunismo e do socialismo, para ser mais exacto do marxismo, que obviamente continua a ser científico, a julgar pelas votações e pelo poder político detido por socialistas e extremistas de esquerda na União Europeia, a começar por Portugal e Espanha.

Dos anos 90 para cá, grande parte dos derrotados de 1989 abandonou as pretensões económico-sociais do marxismo, entretanto falidas no bloco socialista de leste, e dedicou-se a impingir o moralismo ambientalista e a transformação da identidade de cada pessoa. Na prática, deixaram de fazer fogo sobre a economia e passaram a fazer fogo sobre o ambientalismo e a identidade das pessoas, esta última veio a descambar na ideologia do género, já desenhada por Engels no século XIX, mas pouco aplicada até aos anos 90.

Curiosamente, foi no seio da União Europeia e até da ONU que estas ideias marxistas 2.0, fornecidas pelos desempregados ideológicos da URSS e do seu socialismo científico durante os anos 90, tiveram melhor acolhimento: a apologia do aborto, da homossexualidade, do transgenderismo e, mais recentemente, da eutanásia, tem a mesma marca ideológica, assim como o abocanhamento das questões ambientais e do clima pelos políticos, que se apressaram a arranjar culpados para as suas narrativas climáticas catastróficas, a fim de encontrar um bom pretexto para voltarem a ter uma posição de domínio na economia, por via do ambiente e do clima.

Nada desta agenda, que tomou a UE e a ONU de assalto, é hoje acolhido no leste europeu libertado há 30 anos. Mas, na União Europeia, é o marxismo 2.0 que pontifica. Aprendemos nós, aqui no Ocidente, alguma coisa com o que se passou no leste há 30 anos? Nós, não, mas eles, sim.

É por isso que tenho pessoalmente uma grande consideração pelos povos do leste europeu, porque, como dizia um sociólogo russo a respeito do Ocidente, eles já viveram o nosso futuro.