O 25 de Novembro representa a vitória dos militares abrilistas moderados, certamente apoiados por todos os militares não radicais, e pelos civis não revolucionários, sobre os abrilistas radicais. Abrilistas, todos, responsáveis não apenas pela revolta contra a inserção de combatentes milicianos nas suas escalas de promoção, mas também muitos deles, embora moderados, por se haverem deixado enredar pelos radicais, na política de destruição da Pátria Ultramarina, destruição em que andavam, igualmente, envolvidos jovens fugidos à guerra e políticos civis, em geral ausentes no estrangeiro, de ambos os quais saiu a nata dos responsáveis que vieram a tomar conta da política, do governo e da administração do País, depois do 25 de Abril.

Com o 25 de Novembro conteve-se o extremismo militar e o caos político-social que estava a ser impulsionado e que provavelmente terminaria numa guerra civil e/ou, mesmo numa intervenção estrangeira. Isso constitui uma extraordinária dádiva em relação a cujos autores, mandantes e executantes se tem de prestar a homenagem do nosso profundo apreço e da nossa gratidão.

Infelizmente já não puderam então ser corrigidos os crimes e os erros que, do meu ponto de vista, tinham sido cometidos, nem travados os que se lhes seguiram: a insubordinação militar; a politização da insubordinação; o golpe militar; a desistência da defesa do Ultramar, por vezes com vergonhosos abandonos locais; e a interferência ideológica de militares na chamada “descolonização”. Acções que, especialmente em tempo de guerra, desonram os militares intervenientes e mancham a própria Instituição.

Estes crimes e erros deram origem à situação triste que hoje vivem as Forças Armadas, por vezes ignoradas, mal tratadas, desconsideradas social e materialmente, ultrapassadas que foram (e se deixaram ser) por instituições que lhes eram equiparadas. Forças Armadas em relação às quais chegou a ser posta em causa a necessidade ou vantagem da sua existência. Isso certamente porque, por um lado, o inconsciente colectivo do nosso povo registou, e não perdoa, que seus militares, formados e pagos para defenderem a Pátria, como juraram, desistissem de o fazer, após o sacrifício valoroso de tantos dos seus filhos; e por outro pela habilidade com que políticos cúmplices de tais militares têm sabido tirar proveito de tal situação ignominiosa criada. Só o tempo, e o adequado comportamento de novas gerações de militares e civis, mas não a História, irão esfumando tal registo na memória colectiva e reabilitando a Instituição.

Não puderam, também, ser afastados outros erros que levaram o País, generosamente ajudado, há várias décadas, a não dispor de responsáveis capazes de o administrarem com eficiência, e permitiram que fosse malbaratada a ajuda que foi aproveitada quase que apenas em obras públicas. E, assim, degrau a degrau, entre muita conversa, muita reunião, muitas viagens, muita política, muitos governos, acabámos por cair na profunda e generalizada crise, moral e económico-financeira, em que nos encontramos.

De todos estes erros resultou igualmente a situação proporcionada à generalidade das parcelas do antigo Ultramar o qual, numa política que os abrilistas não entenderam, estava a ser ajudada pelo Estado, a partir do interior de cada parcela, não como um império para o qual não havia nem vocação, nem capacidade. Mas sim como uma comunidade com a integração continuamente mais perfeita de toda a sua gente, e sucessivamente globalizada, na sua total dimensão, como agora se diria. Política que, como então se dizia, constituía uma ponta de lança no Mundo futuro. Seria um exemplo que, se seguido, evitaria a desordem que tem invadido grande parte da África, generalizada a guerra e a fome, e que está a impulsionar os movimentos migratórios em direcção à Europa.

Tudo poderia ter sido diferente se a superioridade conseguida, valorosamente, na luta contra a subversão nos campos militar e político-administrativo, principalmente nos teatros de guerra de Angola e Moçambique (superioridade aqui estupidamente ignorada, contestada e subavaliada) não tivesse sido delapidada pelo surto de indisciplina que deu origem ao 25 de Abril e que os abrilistas não souberam evitar que se instalasse, com o apoio ideológico de forças políticas radicais, no Portugal europeu e se propagasse ao Ultramar. E, sobretudo, se tivesse havido “25 de Novembros” que houvessem impedido de por lá persistirem “precs” que omitiram, e se opuseram, à Democracia e ao Desenvolvimento prometidos pelo 25 de Abril, devotados que os abrilistas radicais, militares e civis, estavam naquilo que entendiam como “descolonização”: libertarem-se da guerra e entregarem o Ultramar aos movimentos marxistas.

General Silvino Silvério Marques

(1918-2013)