Diego Armando Maradona Franco faleceu no pretérito dia 25 de Novembro. O seu passamento provocou uma onda de histerismo em grandes manchas das sociedades ocidentais, e sobretudo no país onde nasceu, a Argentina. Até o Papa Francisco se referiu ao personagem!

Mas seria Maradona merecedor de tamanha comoção, exponenciada pela desconcertada opinião publicada? De facto não era.

Oriundo de família pobre — as mais numerosas em todo o planeta — Maradona, nascido a 30/10/1960, na povoação de Lanús (província de Buenos Aires), apenas se distinguiu em vida por ter uns pés com jeito para tocar num objecto a que se convencionou chamar “bola” e ter uma especial intuição em movimentá-la num jogo, oriundo de Inglaterra, conhecido por “soccer”. Futebol, em português.

E foi justamente num jogo contra a Inglaterra que Maradona obteve a sua maior “glória”, contribuindo decisivamente para a vitória da selecção do seu país, na copa do mundo de 1986 — mesmo tendo em conta uma tal de “mão de Deus”. País (Argentina) que lambia ainda as feridas do fim de uma ditadura militar (que tinha resgatado o país de cair em mãos comunistas) e fazia uma catarse colectiva derivada de uma derrota política e militar, pesada e humilhante, frente à Grã-Bretanha devido a um conflito por si espoletado, por causa da reivindicação das Ilhas Malvinas/Falklands.

A Argentina é um país que nunca se encontrou. Independente da Espanha, em 9 de Julho de 1816 (independência apenas reconhecida em 21/9/1863), razoavelmente rica em recursos naturais, com 2,78 milhões de kms e cerca de 45 milhões de habitantes, esteve sempre dividido entre uma cultura castelhana e outra italiana (de onde vieram a maioria dos colonos — tendo a maior parte dos indígenas sido dizimada); com um inimigo de estimação chamado Brasil, e uns estigmas de natureza totalitária que lhe ficaram de herança da sua conturbada história política.

É um país que não se entende, não se desenvolve e vive em termos de emoção extremada, cuja expressão maior é o “tango”. Um símbolo nacional por excelência.

Acontece que o futebol — que não devia passar de ser um desporto — derivou em ser um negócio de milhões e a arrastar multidões, pois concentra em si o pior da psicologia das ditas. Daí ter passado a atrair a atenção e o apoio dos políticos – que pouco se atrevem a criticar o que se passa no seu âmbito – e, por via disso, a invadir como uma mancha de óleo outras áreas de actividade, como é o caso lamentável da Justiça, a qual deve ser imune a “paixões” de ordem mundana.

A coisa foi evoluindo sempre negativamente até haver agora, corrupção generalizada no mundo do futebol e a uma promiscuidade com a política a todos os títulos nefasta e lamentável. As “claques” clubísticas tornaram-se uma espécie de “associação de malfeitores” e frequentemente em casos de polícia.

Foi neste caldo de cultura que o “craque” Maradona (que um olheiro topou logo aos oito anos de idade) se foi construindo.

Mas como era inculto, irrascível, fraco de cabeça e com tendência para a depressão, enveredou pelos excessos de vida tão comuns a quem se vê guindado a patamares de exposição pública para os quais não está preparado, acabando desde muito cedo, viciado em drogas duras o que tornou o resto da sua vida um calvário de doenças, recuperações, recaídas, maus exemplos e desatinos. Foi uma glória fugaz e efémera com um fim triste.

Um homem é um todo com virtudes e defeitos, mas um todo, e como tal deve ser avaliado. Por isso Maradona não pode ser julgado ou tido em conta só pelo que fez com os pés (aliás, tudo na vida o que fez foi com esses apêndices), tem de ser avaliado sobretudo pelo que fez com a cabeça e o coração. E, no fim, qual a “herança” que deixou.

Ora no seu conjunto, Maradona é um péssimo exemplo a seguir e como tal, não fazem sentido algum, as manifestações de pesar, de idolatria, de histeria colectiva, que se registaram.

Maradona como pessoa, como ser humano e cidadão foi uma patética desgraça, de onde ressaltam conturbadas relações familiares; problemas com o fisco; processos disciplinares em clubes e com a FIFA; foi banido de jogos e campeonatos; teve atritos com a imprensa e outros; teve ligações à Camorra Napolitana; conheceu a prisão e foi um poço de vícios (droga e álcool) de onde refulgiam muito poucas virtudes se é que alguma.

Numa palavra, Maradona falhou nos aspectos mais fundamentais da vida; foi apenas um exemplar algo ordinário da espécie “Homo Sapiens, Sapiens”.

O futebol não pode desculpar tudo ou passar um pano sobre todas as nódoas. O mesmo se pode dizer das ideologias políticas execráveis, mal arrumadas, que defendeu em vida (grande admirador de Fidel Castro — “o seu segundo pai” —, Che Guevara, Chávez/Maduro, Lula/Dilma, etc.). E que, talvez mais do que o futebol, expliquem a tal histeria projectada nas pantalhas de todo o mundo.

Maradona não é pois exemplo para nada nem ninguém, a não ser por antítese…

O que se passou no seu funeral (uma multidão, tumulto e confusão), num país afectado pela desgraça do “Covid”, após nove meses de confinamento foi assaz lamentável.

Infelizmente, por tudo isto, o povo e os dirigentes argentinos desceram a um patamar moral e ético dos mais baixos de sempre. É pena.

É mau demais para a memória dos povos e sobretudo como exemplo para como as pessoas se devem comportar.

E a pergunta final que se deve fazer é esta: quais seriam os pais, em qualquer parte do mundo, que diriam para um filho seu, “meu filho põe os olhos em Maradona, para poderes ser como ele”?

Pode-se achar que tudo isto é muito natural e democrático. Mas é justamente a sua negação.

Brandão Ferreira

Tenente-Coronel Piloto Aviador (Ref.)