De ditaduras já se ouve falar há muito tempo. É verdade que nenhum sistema político gosta de ser posto em questão ou ameaçado por uma oposição. Quando surge a ameaça, mais real ou fictícia, logo os apoderados de qualquer regime, se ainda tiver alguma fibra, concitam os seus esforços para eliminar a oposição, seja política, seja fisicamente. As ditaduras do século XX bem nos falam disto e continuam a falar-nos na Coreia do Norte, na Venezuela, em Cuba ou na China comunista-capitalista.

No mundo ocidental, União Europeia e América do Norte, as modernas ditaduras do século XXI são mais sofisticadas, as coisas fazem-se mais às escondidas, pela calada. Sim, há outros meios: o enfraquecimento cultural, o “abaixo connosco”, “identity politics”, legislações contraditórias (muitas vezes contra a própria Constituição) e arbitrárias, Big Tech e a tentativa de monopolizar a informação, multas, ameaças de represálias arbitrárias e ilegais para quem não afina pela batuta do politicamente correcto e ousa alternativas. Será preciso nomear exemplos?

Chegámos hoje a um ponto em que ninguém está bem em lado nenhum. Comecemos por pensar nos não nascidos. Quantos não conseguiram escapar à chaga do aborto? Quantos não viram a sua vida ceifada com toda a violência sem saber porquê? Hoje, nem na barriga da mãe os não nascidos estão seguros. Pelo menos aqueles 16.000 que todos os anos são eliminados sem culpa nenhuma em Portugal.

Sempre que nasce uma criança temos que pensar: conseguiu escapar a uma série de barreiras até chegar aqui, em particular a uma ameaça real que a lei desde logo colocou sobre a sua cabeça. E respiramos fundo…

Mas depois vem a escola. E aí também as crianças não podem estar em paz, com as tentativas de redesenhar as suas identidades através da ideologia do género, da apologia do homossexualismo e do transexualismo, abordagens que muitos pais noutro contexto considerariam abusos sexuais, mas nas escolas, misteriosamente, não consideram. E respiramos fundo se e quando um filho ou neto sai da escola como ele sempre foi…

Na vida adulta também é preciso ter cuidado com a língua e com o teclado do computador, não vá o vizinho, o colega de trabalho ou o Big Tech denunciar qualquer opinião heterodoxa que proferimos ou escrevemos e estamos tramados porque vem a ameaça do desemprego, da multa, do tribunal, ou até da prisão, porque não podíamos ter desagradado com as nossas críticas à sociedade dos pseudo-ofendidos. Quando muito as críticas autorizadas são apenas para o futebol, para a côr dos automóveis (desde que não sejam eléctricos) e mesmo assim falar de cores já não é muito seguro, pode acabar mal. Cuidado também com o género das palavras, referências ao estado do clima, também podem trazer problemas de negacionismo. O mais seguro, mesmo, é estar calado. E viva a liberdade de expressão.

Por fim, vem a terceira idade, e com ela as doenças e a suposta inutilidade dos idosos e doentes terminais. Muitos acharão que são um problema, um peso, para a economia global que é preciso resolver. Por isso, lembraram-se da eutanásia, tão solidários e “compassivos” que eles são. O truque é bom de ver: com uma lei para que os idosos e doentes terminais se sintam um peso para a sociedade e inúteis, é mais fácil convencê-los a aderir à vontade do legislador que é a eutanásia. Se essa intenção não interessa ao legislador, então porque legislam? Será que existe alguma legislação que não interesse ou se faça contra a vontade do legislador, que são os políticos? O primeiro e principal interesse é do legislador, do político, para despachar o inútil idoso ou doente terminal.

Resumindo e concluindo: sempre e cada vez mais ameaçados. Antes de nascer com o aborto; na infância e na juventude, na escola, abusos às crianças e jovens; na vida adulta com denúncias e delitos de opinião, ameaças de desemprego, multas, tribunais, para quem ousar criticar o politicamente correcto; no fim da vida, a eutanásia para os idosos e doentes terminais tidos por inúteis, lixo para a reciclagem.

Com este sistema ditatorial nunca ninguém está em paz, sempre sob fogo.

O cúmulo da hipocrisia é um governo e um parlamento que se desfazem em preocupações (fingidas) e dizem tudo ter feito para poupar vidas durante a pandemia do vírus chinês, simultaneamente maquinarem a favor da eutanásia. Então para quê tanta preocupação com os que morrem com a pandemia, que são maioritariamente idosos e doentes com complicações crónicas, portanto inúteis?

Manuel Brás