Polémicas à parte, o cartaz do Chega relativamente àquelas pessoas que, de há uns tempos a esta parte, não se podem mencionar, não era lá muito feliz.(1)

Em primeiro lugar, por parecer uma evidência, em que o senhor de “La Palisse” não diria melhor. Mas parte dos políticos portugueses e, pelos vistos, os profissionais da “justiça” portuguesa, não conseguem ver ou admitir a “evidência”.

Depois porque deixa outros grupos sociais ou simples cidadãos de fora.

Mas, na realidade, toda a gente sabe que as pessoas deste “grupo étnico” — agora existe um grupo étnico na sociedade portuguesa? Será que os transmontanos vão ser chamados de Celtas ou os minhotos, de Suecos? — não tem uma relação “amistosa” com a lei ou a sociedade portuguesa, onde nunca se quiseram integrar.

Mas, de facto, “eles” (pois de facto há um “nós” e um “eles”) comportam-se como um grupo étnico diferenciado, que não se integra (nem se quer integrar), mesmo com as mais-valias com que têm sido mimoseados e não merecem. E nada fazem por merecer.

Provavelmente por isso, as leis portuguesas (ou outras) não lhes digam nada. E fogem delas como a diabo da cruz. Só que o diabo pode ser exorcizado, os ciganos, pelos vistos, não. O cartaz era discriminatório? Era. Mas apenas aparentemente, pois não passa de ser resposta à discriminação positiva com que os ciganos têm sido contemplados e não são — reafirma-se — merecedores nem agradecidos. Aponta-se o dedo, mas a realidade existe.

E se não se querem integrar só têm uma coisa a fazer, é desaparecerem de cá e regressarem ao norte da Índia, de onde os seus antepassados longínquos se crê terem fugido. E nós não temos culpa nenhuma disso.

O cartaz do Chega

Por isso o “Chega” devia ter antes colocado um outro cartaz a dizer “um olho no burro e outro no cigano. Aforismo popular”.

Como o termo “popular”, diz respeito a muitos (logo, é democrático), além de vir das profundezas do saber empírico dos séculos, nenhum meritíssimo, venerando ou colendo juiz, se atreveria a condená-lo…

E, independentemente da liberdade de expressão — que, de facto, não deve ser ofensiva nem aldrabona — o que parece deduzir-se deste caso, como importante, é se a afirmação feita (“os ciganos têm de cumprir a lei”) é pertinente ou não e, naturalmente, verdadeira — note-se que o tribunal não condenou o cartaz por ser falso!(2)

Ora, relativamente à pertinência — que não parece ser contestável, e está à vista de todos — é mister apurar-se porque é que o cumprimento da lei não é levado a sério nem a efeito!

Convém ainda mencionar os desacatos reportados (e reiterados) em hospitais, centros de saúde, quartéis de bombeiros, ocupações ilegais de casas, venda de produtos contrafeitos em feiras ou pelas ruas; número de presos por tráfico de droga, etc., tudo feito em bando, para já não falar nas contendas violentas, amiúde com armas de fogo, entre famílias desavindas — tudo largamente mencionado nos “media”, sempre com o “cuidado” de nunca pronunciarem a palavra que traduz “Roma”, “calés” (ou “calos”), “gitanos”, “quicos”, “calons” ou “boémios”, como também são conhecidos (as forças de segurança até lhes passaram a chamar “nómadas”…). E como se sabe, a maioria não tem morada fixa, nem trabalho conhecido(3), nem matriculam os miúdos na escola (como pagarão impostos?). E muitos matriculam os filhos na escola, mas é quase como se estes lá não estivessem, pois para além do tratamento ser em geral diferente, o absentismo é enorme; são retirados quando o “pater familiae” o entende, para além do que a matrícula funciona para poderem receber os subsídios da Segurança Social e os alimentos da “Caritas”.

O grau de civilização desta gente ainda está ao nível do clã e não sei se chega à tribo.

Mas, de tudo isto, fogem as “autoridades” — que de autoridade não têm nada — como o demo, do sinal sagrado de Nosso Senhor Jesus Cristo. E não têm vergonha nenhuma na cara.

De que lado está o preconceito? Ou dito de outra maneira, onde mora o preconceito?

É pois crível afirmar que, para além da desqualificação ética e moral em que a sociedade se tem vindo a transformar e a falência do que chamam “Estado de direito democrático” (que tem sido uma ficção), as “autoridades”, onde se incluem os membros do tribunal que julgou este “caso”, tenham é um medo quase epidérmico de levar uma tareia de criar bicho, ao virar da esquina, ou vejam as suas viaturas com cinco amolgadelas por decímetro quadrado de chapa e vidro, caso decidam intervir para pôr esta gente na ordem (e, já agora, não são os únicos).

Infelizmente o cartaz do Chega não devia ter tido razão de existir. Mas teve. E vai continuar a ter.

Brandão Ferreira
Tenente-Coronel Piloto Aviador (Ref.)

________________
(1) Declaração de interesse: as minhas intervenções nunca visam apoiar ou não, seja que “partido” for”, pela simples razão que não gosto de nenhum “partido”; melhor dizendo não gosto da existência de “partidos”. Enquanto houver “partidos”, não pode haver “país”…
(2) Se, por acaso, a frase tivesse um ponto de interrogação no final, também teria sido condenada ou retirada? E se a frase fosse “os ciganos não têm de cumprir a lei?”.
(3) Mais uma vez temos que aludir a um aforismo popular que reza assim, “quem cabritos vende e cabras não tem, de algum lado vem”.

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