Afonso de Albuquerque conquistou a cidade de Malaca para o Reino de Portugal em 15 de Agosto de 1511. E fê-lo de um modo magistral. Malaca era, na altura, a chave para o comércio com o Extremo Oriente. O fidalgo Afonso, que foi governador da Índia, ficou também conhecido como o “Grande”, o “Leão dos Mares”, o “César do Oriente”, o “Marte Português”, o “Tirribil”. D. Manuel I, depois da sua morte e arrependido do modo como o tratara, fez dele Vice-Rei da Índia e distinguiu-o com os títulos de Duque de Goa, Senhor do Mar Vermelho, concedendo-lhe ainda o tratamento de “Dom”; também um notável ancião de Orfação lhe ofereceu um livro em persa, sobre a figura de Alexandre Magno — de quem Albuquerque era admirador —, tendo considerado os portugueses mais valentes do que aquele grande-capitão.

Não me parece vã e desajustada esta asserção.

De facto, Albuquerque reunia todas as qualidades de um estadista, para além das de chefe militar que foi o seu mister inicial e mais prolongado no tempo. Onde revelou sempre serena e ponderada coragem e energia debaixo de fogo, e nas circunstâncias mais extremas.

Como guerreiro combateu em Toro, e esteve duas vezes em Arzila. Foi na armada a Taranto e participou na tomada de Graciosa e em todas as campanhas militares onde Portugal esteve contemporaneamente envolvido. Foi à Índia pela primeira vez sem piloto e foi o primeiro europeu a penetrar no Mar Vermelho.

Como administrador e político, a Índia fala por ele. Foi inovador e estava à frente do tempo. Tinha senso diplomático e era de uma argúcia sibilina. Era um geoestratega de alto gabarito, tendo delineado um plano de dominação do Índico que até hoje não foi superado!

Complementava tudo com uma humanidade que tocava os simples, sem quebra do seu escrúpulo de justiceiro implacável, afastado de toda a cupidez que tantos demonstravam ter. Conhecia a natureza humana e não tinha ilusões sobre os homens. Albuquerque via tudo e atendia a tudo!

Que exemplo para todas as gerações! E é desse exemplo que é mister falar na actualidade.

Que exemplo pode então ser Afonso de Albuquerque para os portugueses de hoje, sobretudo para aquelas gerações completamente arredadas e desconhecedoras da História dos seus maiores?

A História dos países é feita pelos grandes vultos desses países: os estadistas, os chefes militares, os jurisconsultos, os filósofos, os artistas, os cientistas, os escritores, enfim todos aqueles que se destacam positivamente nos diferentes campos e profissões em que se distribui a actividade humana. Onde se avantajam os santos e os heróis. Por todos aqueles que se atêm aos princípios elevados e à prática do Bem.

E também pela qualidade da generalidade do povo, que vive, trabalha, luta e muitas vezes morre e, quando devidamente liderado e enquadrado, sustenta os maiores sacrifícios em prol da pátria comum.

A História não é feita, como defende o compêndio marxista, por lutas de classes, movimentos de massas, ou baseado em factores de estipêndio económico. Muito menos por anti-heróis. Tão pouco explicada e distorcida por correntes ideológicas, ou orientada por uma pseudo-União Europeia que se esforça em ocultar tudo aquilo que pode dividir os países membros em prol de uma mestiçagem histórica, postiça, mentirosa e apócrifa.

A História é feita por homens e mulheres que em função das suas crenças, posição, oportunidade e circunstância, decidem actuar de um modo e não de outro.

Ora Albuquerque é um paradigma de tudo isto. Ele representa uma ideia de vida com dimensão espiritual; um defensor de causas; um lutador determinado sem desfalecimentos; a lealdade consciente e lúcida ao seu país e ao seu rei, apesar de todos os vilipêndios de que foi alvo.

Este homem, da confiança de D. João II, era uma força da natureza; era culto, era competente e era bravo. Tinha consciência das suas capacidades — ou seja, conhecia-se a si próprio e aos outros — mas não exorbitava, sem embargo de alguns acessos de cólera que tinha, que eu diria compreensíveis face a tudo por que passou.

E como disse aquele que foi provavelmente o maior estadista português de todos os tempos: “existem santos entre os homens, mas os homens não são santos”… Significando a perfeição estar longe dos humanos. Uma realidade que todos nós, e sobretudo os legisladores, teimamos em ignorar!

Albuquerque é um exemplo extraordinário de militar, cujos feitos e actuação nos emocionam, fazem correr o sangue mais depressa nas nossas veias e nos impelem a saltar da cadeira onde estejamos sentados!

Ao ler a descrição dos seus combates percorre-nos uma corrente eléctrica incontrolável que nos põe a epiderme em “pele de galinha” e nos enche de um orgulho incontido. Albuquerque gozou do raro privilégio de ser respeitado e admirado, para além de temido, pelos seus inimigos (que não os da Corte…). E um homem cuja memória ainda hoje é venerada no principal território que refundou, que se manteve 450 anos português, mesmo 60 anos após a nossa lamentável partida, não pode ser um homem qualquer. E tem de ser um homem com “H” maiúsculo e um homem bom.

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Afonso de Albuquerque é, porém, para a maioria da sociedade moderna e modernaça, uma espécie de anacronismo. E, todavia, ele representa um pilar da sobrevivência dos povos. A Honra, de que as suas barbas representavam uma espécie de penhor, valia mais do que todas as riquezas do mundo.

Mas só quem tem o desapego das coisas materiais, e até da vida — entendida como terrenamente finita —, pode realizar grandes coisas e, mesmo falhando, é invencível. Só um crente pode comportar-se assim, e Albuquerque era-o. E pertencia à mui nobre ordem militar/religiosa de Santiago da Espada.

E nós estamos a necessitar de “Ordens” como aquela, como de pão para a boca.

As Ordens Militares foram transformadas e depois extintas e substituídas, primeiro pelo absolutismo real; depois pelo liberalismo e pelos partidos políticos. O que sobrou delas está vertido no Exército, na Armada e na Força Aérea.

Só as ditaduras de cariz totalitário e aquelas dos financeiros capitalistas (e não só) apátridas conseguiram e conseguem ser mais funestas que aqueles (partidos)!

Ora um país que se esquece, por ignorância, diletantismo ou má-fé, de evocar, comemorar e exaltar os 500 anos do passamento desta figura maior da História Pátria, é um país e uma sociedade profundamente doente e a caminho da auto-destruição. Que é o caminho que levamos, até, ou sobretudo, em termos demográficos (de portugueses…). Até neste âmbito o segundo Vice-Rei da Índia foi visionário. É pois necessário manter vivo o exemplo de Afonso de Albuquerque, possivelmente o maior combatente português de todos os tempos.

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Os portugueses ficaram em Malaca “apenas” 130 anos, tendo sido desalojados por forças holandesas (da Companhia Neerlandesa das Índias Orientais e com o apoio do sultão de Johore), muito superiores em meios navais e militares, após cinco meses e meio de cerco.

Assim terminou uma epopeia recheada de décadas de resistência a constantes assédios e ataques de toda a ordem, por parte de rivais asiáticos e europeus. Os notáveis portugueses foram presos e mais tarde resgatados; parte da população abandonou-a e foi para Macau, Batávia (actual Jacarta), outras cidades de Java e Sumatra, Maçacar e diversos entrepostos portugueses na Índia.

Malaca serviu de primeira sepultura a S. Francisco Xavier (que a visitara por três vezes), antes dos seus ossos terem sido transladados para Goa.

Os holandeses governaram Malaca até 1795, mas nunca a desenvolveram, tendo destruído quase todo o património deixado pelos portugueses (o que constatámos quando visitámos a cidade), tendo-a cedido aos ingleses, em 1824, por tratado, em troca de Bencoolen, em Sumatra. Os ingleses abandonaram a cidade aquando da independência da Malásia, em 1957, apesar de já fazer parte da União Malásia desde 1946.

Que depois de tudo isto, e de tanto tempo passado, exista memória dos portugueses em Malaca, é mais um “milagre” português (e ainda existem duas pequenas aldeias de pescadores, onde se fala um dialecto aportuguesado e se dança folclore nacional, que o turismo mantinha, mas a que as autoridades portuguesas nunca ligaram).

Mas o que se deve considerar verdadeiramente extraordinário ocorreu durante a volta ao mundo do Navio Escola Sagres, quando este navio aportou a Malaca, em 1978. Quando o Comandante, CMG Martins e Silva, veio a terra, fardado a rigor, a fim de apresentar cumprimentos às autoridades locais (como é da praxe), deslocou-se numa vedeta, dado não haver ainda um molhe onde o navio pudesse acostar. Ao desembarcar aguardava-o um ancião, nos seus melhores trajes regionais, acompanhado de pequena comitiva que, ao ver o Comandante do navio, se dirigiu a ele, ajoelhou, quis beijar-lhe as mãos e perguntou se os portugueses iam regressar…

A partir daqui, não consigo dizer mais nada.

Brandão Ferreira
Tenente-Coronel Piloto Aviador (Ref.)