Foi em 24 de Junho de 1128, dia da Batalha de São Mamede e da Fundação, que D. Afonso Henriques iniciou a definição do território que é hoje Portugal. Nesse dia, enfrentou e venceu nos campos de São Mamede a sua mãe e o galego Fernão Peres de Trava. Portugal acabava de nascer!
Cada país tem, pelo menos no Ocidente, um dia próprio para comemorar a Nação. A par de outras razões, os países quase sempre escolheram, para o dia da Nação, a data da sua independência. Território e língua são elementos essenciais de qualquer nação, com vontade de preservar a sua identidade. É Camões que afirma expressamente, nos Lusíadas, não ser a exaltação dos feitos do capitão da Índia (Vasco da Gama) a finalidade do seu canto, mas sim o louvor da Pátria, através da ilustre galeria de retratos do passado: reis e chefes militares, empenhados em engrandecer Portugal. E elevou o nosso primeiro monarca, o Fundador, às proporções de mito “cuja morte lamentam os rios e os montes da Lusitânia que ele fez reino”, e Egas Moniz, o vassalo fiel, símbolo da nobre virtude cavalheiresca da honra (cf. Canto III).
Entre os séculos XIV a XVII, a Batalha de Ourique foi vista como o acontecimento mais importante por se tratar de um facto sancionado pela visão miraculosa de Cristo. Mas, no século XIX, o historiador Alexandre Herculano restituiu à Batalha de São Mamede o significado nacional, passando a ser o facto mais importante por se tratar de uma acção colectiva, envolvendo a maioria dos senhores do Norte de Portugal, contra o domínio estrangeiro. Herculano chamou-lhe mesmo uma “revolução”. A mesma opinião tem o historiador José Mattoso. Daí que se considere este facto histórico como o mais adequado para a celebração do dia da Fundação de Portugal.
Ora, uma larga vista de olhos sobre o conjunto de manifestações de ordem histórica e cultural, produzidas ao longo dos tempos, não deixará de conduzir à unidade destas três realidades: Fundação, Camões e os Portugueses. Espartilhar esta realidade é negar Portugal como Nação. É também por obra e graça da sublimidade e do talento desses dois homens — D. Afonso Henriques e Camões — que flui e emana o que há de intemporal e de imorredouro nos actos da criação do espírito dos portugueses.
Dia da Batalha de São Mamede e da Fundação
Como se vê, as figuras de D. Afonso Henriques e Camões completam-se nestes dois elementos: o primeiro, com o seu génio militar e diplomático deu-nos o território que temos. Por sua vez, Camões coloca como acção d’Os Lusíadas a história de Portugal, lançando um apelo à consciência nacional e universal de que Guimarães e a independência de Portugal é necessariamente o primeiro capítulo.
Dir-se-á que na medida em que as figuras de D. Afonso Henriques e de Camões se completam nos dois elementos essenciais à formação de uma nação (território e língua), tal facto justifica plenamente a celebração da comemoração no dia 24 de Junho num feriado nacional. Na verdade, não se compreende que o dia 10 de Junho seja feriado nacional e que, do mesmo modo, não o seja o dia 24 de Junho. A conexão e o significado das duas datas revelam o desacerto da decisão de manter o dia 24 de Junho, o aniversário da Batalha de São Mamede, apenas como feriado municipal, quando se trata de um facto histórico que os autores consideram como sendo o da Fundação de Portugal, razão pela qual faz todo o sentido que o dia da Batalha de São Mamede seja considerado Dia de Portugal.
Saliente-se que o dia 24 de Junho, sendo dia de S. João, é feriado municipal nas duas maiores cidades do Norte do país (Porto e Braga) e é festejado em muitos outros concelhos, freguesias e até lugares, espalhados um pouco por todo o país.
Por tudo isto, afigura-se-nos que a criação do feriado nacional em 24 de Junho, dia da Batalha de São Mamede e da Fundação de Portugal, configura um acto de justiça para com D. Afonso Henriques e, estamos certos, encontrará apoio numa larga maioria de portugueses.
