Natural da cidade do Porto e nortenha dos quatro costados, eu desconhecia a Festa da Mãe Soberana, em Loulé, que afinal são duas Festas, a primeira no Domingo de Páscoa e a segunda quinze dias depois. 

Foi graças ao saudoso Prof. José Hermano Saraiva, no seu programa “A Alma e a Gente” (https://www.youtube.com/watch?v=USntJkvnUgM), que tive conhecimento desta singular manifestação religiosa e não mais esqueci as imagens que presenciei.

Não se apagou da minha memória o andor coberto, dourado e ornamentado com a leveza de flores de amendoeira, tão algarvias, anunciando a Primavera por onde passava.

À primeira oportunidade, desloquei-me a Loulé para conhecer e participar na Festa Grande.

A imagem venerada é a da Senhora da Piedade. Os seus olhos são pintados numa só cor, em negro, mas são, diria, miraculosamente expressivos. A Senhora tem a seu colo o Filho morto. Mas há nela tamanha carga sofredora, que quase ofusca o Cristo. Os olhares fixam-se na Mãe. Habita todo o ano numa ermida sobranceira à cidade de Loulé. Posteriormente, já em pleno século XX construiu-se ao lado o santuário — todo branco, uma beleza. Daí se avista serra e mar. Todo o espaço em redor pode contemplar a alvura deste conjunto arquitectónico.

No Domingo de Páscoa a imagem desce no seu peculiar andor, em procissão até à cidade de Loulé. É a Festa Pequena. Durante 2 semanas, permanece junto dos louletanos na Igreja de São Francisco. Nestes dias, o povo visita a sua padroeira. Velas acendidas pelos devotos, oração privada, recitação comunitária do Terço, Santa Missa, com sermão por sacerdote de fora convidado. A todo o instante chega, se ajoelha, permanece e sai gente de todas as idades — aí vemos crianças de infantário acompanhadas de suas educadoras, até casais já com bodas de ouro celebradas.

Terminado o tempo, a Senhora regressa à ermida. É a Festa Grande. É a explosão da alegria pascal algarvia, manifestada em vivas e aplausos, numa amálgama de gratidão, súplica e saudade, no mar ondulante de lenços brancos.

Considerava eu, erradamente, que no Algarve das praias douradas e mares azuis procurado pelo sol e Verões escaldantes, os meus olhos não veriam tal expressão de Fé.

Também em S. Brás de Alportel o Domingo de Páscoa é festejadíssimo. É a Festa das Tochas Floridas, algo único em Portugal e porventura no mundo, que atrai as gentes algarvias e em especial os britânicos que nos visitam.

É a outra face do Algarve. O Algarve que conservou a sua cultura e manifestações de Fé. Para mim, uma verdadeira caixinha de surpresas.

Maria das Dores Folque