Brandão Ferreira

Era uma vez em Santo Aleixo. Tinha rebentado a guerra com Castela, então já Espanha, e lavrava a devastação nas terras raianas.

Manuel Alegria Destarte (que, segundo uns, teria sido o inspirador das églogas de Rodrigues Lobo e segundo outros, também não) vilão, que começou por carregar a lança a D. Álvaro Cunha Leve, neto de um aristocrata russo que tinha ficado por Lisboa depois de ter perdido o navio em que viajava, quando fugia da guerra civil que abalou Castela, ao tempo da Beltraneja, passando-se mais tarde, para o campo do nobre Mário dos Ares e Re Pim Pim, da discreta Lusitana Casa (com origens remotas no Oriente) que pelo seu republicanismo feroz apoiou a ditadura de Cromwell, quando este mandou cortar a cabeça ao Rei Carlos I, e se opôs em seguida ao casamento da infeliz princesa Catarina com o filho daquele, que veio a reinar com o título de Carlos II.

O dito Destarte, não gostando dos Braganças resolveu contactar o augusto corruptor-mor de Filipe I — aquele que afirmou sobre Portugal “este reino herdei-o, comprei-o e conquistei-o”, de sua graça Moura, Cristóvam de Moura, em busca de apoios contra a ordem estabelecida, após a luminosa alvorada do 1º de Dezembro de 1640.

Mobilizado para uma praça ultramarina, a estratégica Fortaleza de Massangano, Destarte logo tentou revoltar a guarnição, o que não conseguiu.

Para lá confluíram as Justiças do Mordomo-Mor da nova Dinastia, um tal D. António de Oliveira Sanlúcar, ainda aparentado aos Condes do Vimieiro, mas o vilão Manuel conseguiu atravessar a fronteira a salto, acabando por se estabelecer na povoação de Aracena, antiga comenda da Ordem do Templo, que ficou para Castela aquando do Tratado de Alcanizes, celebrado no glorioso ano de 1297.

Passando então a ser conhecido pelo “Manolo de los versos”.

De lá passou a conspirar contra o seu Rei natural e como os apoios do traidor da causa nacional Cristóvam de Moura não eram suficientes, estabeleceu contactos com a Berberia, onde teve trato com o Bei de Argel a fim de implementar a pirataria nas terras do Algarve de aquém e além-mar em África.

Estabeleceu ainda uma rede de estações de sinais de fumo, baseada em atalaias nos pontos mais altos que conduziam à fronteira para passarem mensagens para o lado de cá da mesma e, outrossim, uma rede de correios que passariam dissimuladamente, mensagens para o interior dos domínios da Terra de Santa Maria, que o oitavo Duque da Casa Senhorial mais antiga do país, alçou a Rainha de Portugal, em 1646. Deus seja louvado.

E foi assim que nas ofensivas dos vizinhos que nos caíram em sorte, Santo Aleixo foi atacada em 1641 e 1644 e em muitas outras alturas foi ameaçada.

Defenderam-se bem e com garbo, os de Santo Aleixo e muitos verteram o seu sangue e viram a sua fazenda destruída e pilhada pelas invasões de quem não queriam na sua terra. E fizeram tudo isto resistindo ainda às insinuações torpes e metafisicas vindas de Aracena através do fumo e dos mensageiros, em que prometiam loas e benesses aos habitantes da margem esquerda do Guadiana se passassem para o lado do inimigo, abandonando as espadas e as escopetas e desmoralizando-os com notícias falsas, quando não a congratulação vil, pelas mortes dos combatentes que cumpriam o seu dever de bons portugueses.

Foi a paz finalmente restabelecida (veio ainda a ser quebrada muitas vezes depois e nada garante que o não seja novamente) após 28 longos anos de lutas em quatro continentes e outros tantos oceanos.

Uma paz que não foi lá grande coisa e a Santa Sé ainda levou dois anos a reconhecê-la. Mas estavam todos cansados da guerra… e tudo se esqueceu rapidamente.

“Manolo de los versos”, de vilão passou a Dom e de versejador a erudito. Não se sabe se alguma vez trabalhou na vida. Casou, teve filhos e foi muito galardoado. Consta que viveu desconsolado por não ter sido mais reconhecido. Passeia-se muito e chegou a ser vitoriado em Massangano.

Uns anos mais tarde, por indicação de um monge cavaleiro pertencente a uma antiga e nobre Ordem Militar, entretanto transviado nos seus ideais e juramentos, foi Destarte indicado para falar sobre o significado do 1º de Dezembro (de 1640), na praça central de Santo Aleixo! E que oração patriótica ele fez!

Mas já ninguém se recordava dos sinais de fumo, nem das mensagens…

Será que já teria ido dar uma aula no âmbito da nova disciplina da História?(1)

E com romances e bolos (e muita falta de espinha e vergonha) se enganam os tolos.

Dante já ninguém te lê!

Ó Tempora, Ó Mores!

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(1) Aquela de que ainda não se conhece o programa mas já dá vómitos só de ouvir falar!

Oficial Piloto Aviador (Ref.)