Os padres, bispos, cardeais e papas, são vasos de barro, que trazem em si um tesouro imenso, infinito. Como vasos de argila são frágeis, facilmente quebradiços e sujeitos a muitas e tremendas tentações. Estas, como se sabe não são pecado, aliás, no Pai-nosso não pedimos a Deus que nos livre das tentações (embora todos têm a estrita obrigação moral de não se colocar em ocasião delas), imploramos sim que não nos deixe cair nelas, isto é, que nos conceda o Seu auxílio, a Sua Graça, para as vencermos, e não pecarmos.

Há tentações claras, diria evidentes, que de tão manifestas poderão ser repudiadas prontamente e com veemência. Outras, porém, são mais subtis, como que disfarçadas, seduzindo com grandes aparências de bem.

Uma muita perigosa é a do narcisismo. O narcisismo pode encontrar-se em muitos tipos de sacerdotes, quer nos impropriamente chamados avançados ou progressistas quer nos inadequadamente apelidados de tradicionalistas. Os primeiros, procurarão sobressair pelas celebrações litúrgicas criativas, por homilias fantasiosas, de mentalidade secularista, e declarações bombásticas desenquadradas, ou mesmo à margem, da Doutrina da Igreja, da Sagrada Escritura e da Tradição.

Os segundos, que gostam muito de ser vistos, pelo contrário, buscam distinguir-se por celebrações cuidadas e devotas, regozijando-se com a admiração e elogios dos fiéis. Como os primeiros, embora de forma oposta, preocupam-se em fazer homilias que possam ser apreciadas, como que aplaudidas. Em vez de procurarem que as pessoas depois do sermão saiam insatisfeitas consigo próprias — arrependidas de seus pecados e empenhando-se por uma conversão cada vez maior —, esforçam-se para que os fiéis saiam muito satisfeitos e contentes com o pregador.

Todos os que padecem de narcisismo, embora de modos contraditórios, procuram a singularidade, não suportando passar despercebidos.

Outras tentações muito insidiosas, e que frequentemente vão juntas, são a do medo e a do “carreirismo” eclesiástico. Não poucos padres e párocos receosos de perderem as paróquias ou os títulos que adquiriram querem fazer figura diante dos seus bispos independentemente de se eles estão certos ou errados nas questões Doutrinais-Disciplinares.

Assim, são capazes de escrever artigos ou fazer homilias advogando aquilo em que não acreditam e contra as suas consciências, por exemplo, darem a Comunhão a pecadores públicos obstinados, com a desculpa esfarrapada de que não vêem as pessoas a quem A distribuem. Não contentes com a desfaçatez hipócrita barram, recorrendo a falsas razões, a Celebração Eucarística a outros padres, que seguindo o Magistério perene da Igreja e a Sua Sagrada Tradição se recusam a ser cúmplices facilitando os sacrilégios.

E o padre ou padres que são sistematicamente excluídos por estas razões e outras semelhantes, que deve fazer? Evidentemente, dar Graças a Deus e agradecer-lhe muito do fundo do coração que a Sua Providência Bendita lhe tenha concedido esta Graça da de poder viver e experimentar a humilhação. De facto, ninguém se torna humilde de não padecer humilhações.

À honra de Cristo. Ámen.

Padre Nuno Serras Pereira