Uma das acusações feitas pela oposição ao Estado Novo queixava-se de que toda a oposição era descrita, pelo poder, como sendo comunista. Em termos de nomenclatura política e ideológica tal designação genérica não faria sentido porque, na oposição, havia gente do socialismo democrático, da social-democracia e da democracia-cristã. Com o 25 de Novembro foram-se as botifarras “kremlinescas”… mas ficaram os pezinhos de lã demo-liberais.
Embora as referidas linhas políticas não estivessem organizadas em partidos portugueses, os seus agentes já existiam, sob o comando das grandes sedes europeias dessas organizações políticas partidárias. No entanto, o paradigma do combate ao regime estava no Partido Comunista Português que, em certas nuances, se misturava tranquilamente com alguns sectores socialistas. Em todo o caso, havia uma marca de esquerda em toda a oposição e, talvez por isso, dando o mesmo significado à esquerda e ao comunismo, o regime via em todos os opositores a marca do marxismo-leninismo.
Quinze meses depois da queda do regime do Estado Novo, em Novembro de 1975, um golpe militar libertou Portugal da hegemonia da extrema-esquerda. Naturalmente, quem não era de esquerda abençoou o sucesso, mas à esquerda sempre custou aceitar a neutralização dos “seus” radicais, de tal modo que, ainda agora, há quem se manifeste contra o 25 de Novembro, berrando que o evento não deve ser festejado. Esta rejeição, lamentando a extinção da extrema-esquerda, faz lembrar o conceito do Estado Novo: “são todos comunistas”. Continua a existir, entre os políticos portugueses, uma simpatia generalizada pela esquerda, seja ela extrema ou não, o que, de certo modo, parece dar razão às acusações genéricas do regime que vigorou durante a II República.
Com o 25 de Novembro foram-se as botifarras “kremlinescas”
O movimento militar que em 25 de Novembro de 1975 silenciou a esquerda mais radical constituiu o culminar de um processo que começara no Verão desse ano, designado por “Verão quente”, em que a junção de diversas forças políticas se constituiu como frente de acção atacando, um pouco por todo o país, sedes de partidos radicais incluindo do próprio PCP. Estavam nisso juntos: o Movimento Democrático para a Libertação de Portugal (MDLP), que representava um certo “nacionalismo” de direita, na clandestinidade; o Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado (MRPP), que com disposição maoísta, se opunha aos comunistas afectos a Moscovo; e a ala liberal do Partido Socialista que, sob a batuta norte-americana, se batia para evitar que Portugal se tornasse um Estado controlado pela União Soviética.
Nesse quadro, o movimento militar em apreço, pôs fim a uma situação de caos generalizado que preludiava uma guerra civil. Nas negociações políticas que se seguiram foi imposta a recuperação do PCP, talvez devido à sua força sindical, mas a linha que triunfou foi a que dimanava dos conceitos de Mário Soares, que nada mais eram que determinações da Casa Branca, protagonizadas por Frank Carlucci, na altura embaixador dos Estados Unidos da América em Portugal.
Deste modo, se o 25 de Novembro libertou Portugal do radicalismo de esquerda não o protegeu do demo-liberalismo de inspiração norte-americana que continua a constranger a vida dos portugueses.
Com o 25 de Novembro foram-se as botifarras “kremlinescas”… mas ficaram os pezinhos de lã demo-liberais.
Carlos Dugos
