Afirmo mais uma vez, que o problema maior do país é do foro ético e moral. Parece que os marginais tomaram conta da política, e não só. Este problema dá então origem, ou condiciona, todo o sistema político que, por sua vez, origina o problema financeiro, normalmente responsável pelo problema económico, tudo desembocando numa crise social. Numa sociedade doente. Por esta ordem. E tal deriva fundamentalmente da natureza humana.

Não é difícil perceber que este introito vem a propósito do que está a acontecer actualmente (e vem de trás, muito de trás) e que levou à demissão do primeiro-ministro António Costa (PM).

O que é, aliás, uma actualidade dinâmica, que vai continuar por muito tempo, que engrena, toca ou é paralela, com muitos (mas muitos) outros escândalos pouco abonatórios dos filhos d’algo, deste pobre (de espírito) Portugal e se prevê ir continuar na mesma senda, pois nada se faz ou tenciona fazer para mudar o “sistema” e as pessoas que dele se servem.

Aliás os dois eventos mais “notáveis” sobre esta enésima crise e bem reveladores do que podemos esperar dos seus protagonistas foram (até ver), duas caminhadas do Presidente da República (PR) e do PM.

O primeiro veio dar uma volta ao quarteirão — desta vez sem propaganda a marcas de gelados — acompanhado, à falta de melhor, por uma das suas ajudantes de campo que, já agora, não existem para serem sujeitas a estes fretes.(1)

Este acto aparentemente político (?!) teve o condão de ter o acompanhamento patético das câmaras de televisão — foi por elas que demos conta deste augusto gesto — mesmo depois de “sua excelência” afirmar que não iria dizer nada…

Certamente para não ficar atrás, o PM, agora acompanhado, não por ajudante de campo — a que não tem direito — mas pela sua mulher (sempre é uma ajudante de campo, para a vida) veio passear já de noite até à sede do PS, mas desta vez disposto a abrir os cordões à boca.

E lá estavam os senhores jornalistas para o acompanhar. Esta coisa dos jornalistas estarem presentes nestes actos, não sei se é por terem equipas emboscadas à espreita em vários locais ou se se limitam a esperar o anúncio destes “acasos”, vindos dos assessores dos eleitos políticos que os nossos impostos pagam, ou ambos.

Para que serviu o passeio do primeiro-ministro? Naturalmente para um exercício de transcendente importância e que é este: afirmação de personalidade no sentido de dizer que “eu também passeio à noite, ou até ao lusco-fusco, não é só ele!”

E quem terá tirado essa ideia da cartola? Pois talvez o “gabinete de imagem” que estes personagens logo montam na tentativa vã, de lhes darem os 10 centímetros que lhes faltam.

Quem paga estes “gabinetes”, certamente também os impostos dos cidadãos que devem ficar muito gratos, obrigados e entusiasmados com todo este teatro de sombras com que constantemente os tentam iludir…

Estas últimas investigações judiciais que deram origem a este terramoto político tiveram, ao que parece, uma novidade que merece ser referida: a surpresa na actuação.

Desta feita todos os arguidos e forças políticas e até os órgãos de informação foram apanhados de surpresa. Ou seja, não houve como é costume, fugas de informação e por isso não havia jornalistas à espera das devassas e das detenções.

O facto de a Polícia Judiciária ter estado aparentemente ausente da actuação final e ter sido substituída pela PSP (que mudou de Director Nacional há pouco tempo) é sujeito a especulação legítima. Finalmente, as corajosas declarações do presidente do Supremo Tribunal de Justiça, algo inusitadas, a propósito do aumento da corrupção ao mais alto nível do Estado, pode ter precipitado a actuação do Ministério Público, no sentido de que tais declarações pudessem ter feito alertar determinados ouvidos e tal poder conduzir à destruição de provas.

E sobre que versa a investigação que começou segundo informações vindas a público, há quatro anos, a que deram o sugestivo nome de “influencer”? Pois sobre os negócios ligados ao que pomposamente puseram o nome de “transição energética”. O assunto não é despiciendo e tem marcado a agenda política, económica e financeira.

Parece que os marginais tomaram conta da política

Em linhas muito breves, de que poucos falam, existem dois “lobbies” poderosíssimos a nível mundial (o que é preciso ter em mente é que no fim tudo se traduz nos ganhos do vil metal, não em qualquer preocupação ambiental, ecológica ou de qualidade de vida), os interesses ligados à exploração de combustíveis fósseis (hidrocarbonetos, gás natural, carvão, xistos betuminosos, etc.) e as energias renováveis apelidadas de “verdes” (eólica, marés, fotovoltaica, barragens — há muito existentes — carros eléctricos e agora o incensado hidrogénio, a dar os primeiros passos).

Pelo meio e entalada no meio dos dois, encontra-se a muito causticada energia nuclear, de que quase não se fala (a não ser para lembrar Chernobyl e Fukushima).

A envolver todo este cenário, foi-se criando um conjunto alargado de legislação ambiental que cada vez condiciona mais que se possa avançar num sentido ou outro, cheia de “alçapões”, criada pelas sucessivas gerações de políticos, muitos dos quais se queixam depois que elas os não deixam fazer o que querem. Como aconteceu agora, por exemplo, com o PM Costa. E que depois os “influencers” lá têm que intervir para “desbloquear” os equinócios (ou outros interesses) que aparecem pelo caminho. O que pode ser feito de formas lícitas ou ilícitas…

Os interesses emergentes das energias renováveis apoiados nas novas formas de “marxismo cultural” em desenvolvimento, deitaram mão de tudo para se poderem impor e terem o seu quinhão na ordem existente. Daí, estamos em crer, a tremenda guerra que encetaram sobre as hipotéticas “alterações climáticas” que os “média” propalam acriticamente todos os dias.

Curiosamente as empresas que exploram as energias “clássicas” — ditas sujas —, bem instaladas no seu negócio, escudadas em organizações poderosas (por exemplo a OPEP) e largamente financiadas pelos petrodólares, há longos anos que se mantêm “estranhamente” caladas no meio da guerra mediática.

É conhecido que o governo português desde o tempo de José Sócrates como primeiro-ministro e continuado pela geringonça, onde pontuavam os sicários do arguido anterior, se enfiaram de cabeça nos interesses das energias renováveis segundo as linhas doutrinárias dos bens pensantes de Bruxelas e com caixa de ressonância em sectores da ONU e do Fórum de Davos.

E para tornarem o assunto irreversível, mesmo sacrificando interesses fundamentais do país, desataram a fechar modernas centrais a carvão; encerraram a refinaria de Leixões; andam a semear alegremente painéis solares (cujos materiais também são poluentes e importados, e necessitam ser tratados após a sua validade) em milhares de hectares de terrenos agrícolas, silvícolas e de pastagem, e resolvem apostar a fundo no hidrogénio cuja tecnologia ainda está a dar os primeiros passos (ou seja, contém um risco muito elevado de investimento e exploração e, para já mais cara). Para além disso passaram a ter um especial carinho pelas eólicas, que também levantam problemas, o menor dos quais não será o que fazer das pás das hélices no fim da sua vida útil.

Pelo caminho vão alienando barragens para interesses estrangeiros…

“Last but not the least”, não olham a meios para pôr todo o cidadão a comprar carros elétricos, sabendo-se já dos graves problemas causados pelas baterias, seu custo e o que fazer delas depois de mortas. Para já não falar do alto consumo de lítio a que obrigam, mas que depois há uma quantidade de gente que não quer minerar (o que é um erro cumprindo-se a salvaguarda de questões ambientais — e não se pode ter “sol na eira e chuva no nabal” em simultâneo…).

Ou seja, não há energias “limpas”…

Em súmula, onde há negócios, se as leis não forem adequadas e as pessoas deixarem muito à integridade de carácter, é fatal como o destino que surgirá uma qualquer forma de corrupção, até porque as “comissões” são muito tentadoras. E não faltam lugares de administração não executiva e consultadoria vária, pagas com chorudas somas, “naturalmente” em “offshores” — algo que todos criticam da boca para fora, mas até hoje ninguém intentou combater efectivamente. De onde se pode concluir que a todos convém…

No fim de tudo isto a população em geral vai encolhendo os ombros reforçando o mal dizer e a falta de respeito pelos políticos, agravando o já institucionalizado “eles são todos iguais”.

E muitos dos que estão a ver o que se passa (como diz o ditado), apenas aguardam uma oportunidade que lhes permita pôr a mão na massa, já que o “longo braço da lei” não zurze o lombo de quem prevarica com força que os castigue a sério e, em simultâneo, crie dissuasão em quem tenha apetência para pisar o risco.

O que se disse atrás tem a ver com os partidos políticos, sua génese e prática? Tem. Por isso é uma questão de regime e ao misturarem tudo isto com democracia, vão matá-la aos bocadinhos.

Mas esta discussão fica para outra altura.

Até agora e como muito bem observou o humorista Araújo Pereira, ainda não aconteceu nada ou quase. Ou seja, o parlamento foi dissolvido, mas continua em funções; o orçamento não foi ainda aprovado, mas vai ser; António Costa está demissionário, mas continua em funções (discursa e diz barbaridades); nada mudou no governo (ou seja, os putativos corruptos, ou “influencers” continuam lá dentro — enfim o “emplastro” Galamba lá saiu antes de ser cuspido fora) e prevê-se que dure até Abril.

Até se arranjou uma questiúncula irresponsável e de contornos idiotas, com a hipótese do governador do Banco de Portugal ir chefiar o governo — mas para já continua tudo na paz do Senhor. Marcelo ao mesmo tempo que marca eleições antecipadas elogia o PM, cujo comportamento originou tal medida.

Os advogados (que deviam ser proibidos de tecer comentários fora dos tribunais sobre os processos em que estão envolvidos) fazem comícios a propósito de tudo e de nada e o ruído nos “media” é enorme.

Aliás meio mundo, a começar pelos políticos, critica o funcionamento da Justiça, nomeadamente o Ministério Público (MP), o que tem justificação vária (soluções precisam-se). Mas porque se queixam? Quem faz as leis e as regulam não são os políticos (e os gabinetes de advogados, contratados pelos políticos)? Sobretudo os que se sentam no governo e Assembleia da República? E o PR não apõe a sua assinatura? Os agentes da Justiça não actuam em função do legislado? Os detentores dos mais altos cargos do sistema de Justiça não são escolhidos e nomeados pelo Poder Executivo e Legislativo e intervenção do PR? Então queixam-se de quê? Do que fazem e deixam fazer? Que a Justiça, neste caso o MP, interfere com a política? E a política não interfere com a Justiça?

Ora, ora, ainda não perceberam que a separação de poderes é uma falácia inventada (talvez com as melhores intenções) pelo Montesquieu, no século XVIII, mas só funciona em teoria?

A imagem do país é péssima e é o seu espelho.

Já ouvi dizer que lá por fora é igual ou pior. Fraca argumentação; e o que interessa é o que se passa no (ainda) nosso país. O Estado precisa de ser sujeito a uma valente saponária. Tenho vergonha.

Para já a saída menos má para toda esta situação seria marcar eleições até ao fim do ano (apesar do ordenamento legal o impossibilitar), assim vai ser penoso, pantanoso e com benefício para o infractor; é certo que nos estragava o Natal, mas também há muito tempo que poucos o festejam…

Afinal, parece que andamos a ser governados por marginais e trafulhas que tomaram conta da política, ou não?

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(1) Deve ainda perguntar-se onde pára a “igualdade de género”. Então os três ajudantes de campo são mulheres, presume-se que do sexo feminino, quando a sua percentagem nas Forças Armadas é de cerca de 14%? Então os homens não têm direito a nada? E querem saber que uma delas é de origem cigana? Porque será? Para parecer inclusivo? Mas o facto de a senhora oficial já pertencer a um ramo das Forças Armadas já não é a prova provada de que não há discriminação? Irá o Presidente da República aumentar o número de ajudantes de campo, para alargar a amostragem às diferentes “cores do arco-íris”? O PR goza fama de ser inteligente, melhor seria que fosse utilizada em algo de útil… E eu a julgar que os oficiais que são destacados para a Presidência da República o devem ser por mérito e para bem representarem os ramos, não por outros “caprichos”. Não são os chefes de Estado-Maior que devem nomear os assessores militares? Já agora as senhoras oficiais em causa não se deviam dar ao respeito e não se sujeitarem a passeios, incluindo idas à praia, que não têm nada a ver com o seu serviço?

Brandão Ferreira
Tenente-Coronel Piloto Aviador (Ref.)

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